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O Chef

Por ele mesmo.

Os projetos, as causas e as convicções de Francisco Sant'Ana: o que ele faz além da sala de aula e por que faz.

"Eu não consigo vender nem um picolé sem ter propósito."

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Francisco Sant'Ana
A Escola Sorvete

A primeira formação independente do ramo na América Latina. Já ensinou cerca de 4,5 mil alunos entre aulas presenciais e os cursos online criados durante a pandemia. A intenção é formar microempreendedores e desenvolver uma sorveteria genuinamente brasileira, feita com ingredientes naturais.

Consultoria sem fronteiras

De volta ao Brasil desde 2015, além das aulas fornece sorvetes para restaurantes e lojas e dá consultoria para sorveteiros que vão do interior de Goiás a países como El Salvador, Rússia e Egito.

Entrevista · Gama Revista

Em suas palavras

O que te trouxe até aqui?

Eu sou preto, de origem pobre, e cresci em Cajamar, periferia de São Paulo. Joguei futebol até os 16, quando rompi o ligamento do joelho, e aí fiz de tudo: vendi roupa no trem, galinha na feira, o que aparecia. Eu sou de uma geração de resistentes. E todo dia acordo com a consciência de que tive sorte e fui privilegiado de ter feito o que fiz, e tento retribuir isso ao mundo. Quantos franciscos se perderam pelo caminho porque não tiveram oportunidade? Então hoje eu melhoro a minha vida tentando melhorar a vida dos outros.

"Minha missão é criar renda e emprego e incentivar o empreendedorismo para uma nova sorveteria brasileira."

Qual a sua missão na profissão?

Criar renda e emprego e incentivar o empreendedorismo para uma nova sorveteria brasileira, um mercado que é quase 85% de pequenos e médios produtores. Outro dia me ligou um cara dizendo que fez meu curso online de açaí, passou a produzir e hoje vende para uma porção de lojas, com 25 funcionários contratados. Eu tenho orgulho de saber que 25 pessoas levam pão para casa por causa de algo que eu criei. Eu quero que todo mundo possa chegar em casa e jantar a mesma coisa que eu.

Quais os principais desafios da sua área?

Minha ideia sempre foi construir a identidade da sorveteria brasileira, que precisa se desenvolver dentro de uma cadeia produtiva, como já acontece com o açaí. Temos um país imenso, com grande variedade de frutas, leite e água de qualidade, além de ingredientes especiais como a baunilha do cerrado. Mas nossa sorveteria foi montada em cima de modelos de outros países por uma indústria que vende produtos pré-prontos cheios de saborizantes, gordura vegetal, açúcar e emulsificante. E não há regulamentação para os gelados comestíveis: você pode dizer que algo é de morango tendo só 20% de morango. Colocar mais fruta significa gerar outra cadeia de emprego e negócios, além de melhorar a alimentação das pessoas.

O que um bom sorveteiro precisa saber?

Precisa entender que sorvete é estudo. Sorvete é cartesiano, é matemática, tem uma coisa lógica ali, tem que ser técnico. Tudo o que eu faço vem de estudo e de teste. Depois, precisa compreender onde você está, para quem vai vender, quem são os clientes em potencial, como é sua cadeia de produção e de vendas. Gastronomia é, acima de tudo, sistema de venda apoiado num sistema de produção e num sistema cultural. Além disso, se você gosta do fim de semana e dos meses de verão, não dá pra ser sorveteiro.

Como você vê os recomeços na vida profissional?

Eu recomeço todo dia e aprendo todo dia, todo dia é uma escola. Recomeçar tem a ver com se adaptar às novas dinâmicas, ter uma boa gestão das suas circunstâncias, entender o que você precisa no momento. E tem a ver com necessidade e resiliência também: quem já teve fome sabe como acordar de manhã e recomeçar.